Papo de Bolsa » O impacto do altamente improvável

Por: Brasilio Andrade Neto

Pergunte a qualquer arqueólogo ou estudioso das culturas antigas sobre que profissões estiveram desde sempre com a humanidade. Entre os suspeitos de sempre, caçadores, nobres e sacerdotes está a profissão de mágico. Parece estranho, não? Um mágico não faz parte do esquema geral de como as coisas funcionam, é um entretenimento supérfluo.

Mas esses profissionais fazem algo que ninguém mais consegue: eles controlam a surpresa. Por mais que acreditemos que vivemos em uma rotina, em que todos os dias são iguais, sempre acontece algo diferente, que não controlamos. Todo nosso esforço é feito para vivermos em um mundo padronizado, mas a natureza, a sociedade e a Lei de Murphy insistem em mostrar que estamos, na verdade, em um mundo de altos e baixos. Os mágicos parecem controlar esses acontecimentos. Mostram algo totalmente fora do padrão e, logo depois, o consertam.

Entretanto, no mundo dos investimentos e ações não existem mágicos. É preciso aprender a lidar com a surpresa, os sustos, o improvável..

É isso que Nassim Nicholas Taleb mostra em seu livro The Black SwanThe impact of the highly improbable (O Cisne Negro – O impacto do altamente improvável). Nassim Taleb lecionou, por sete anos, a Aplicação da Teoria da Probabilidade no Gerenciamento de Riscos na Universidade de Nova York, antes de assumir o cargo de reitor da Universidade de Massachusetts. Quando não está entre acadêmicos, Taleb é operador financeiro – e “empiricista com especialização em sorte, incerteza, probabilidade e conhecimento”, como costuma se definir. O nome do seu livro vem do fato que, antes da descoberta da Austrália, acreditava-se que todos os cisnes eram brancos. Era uma verdade que ninguém discutia.

O livro também podia se chamar “Os Mil Dias do Peru”. Imagine uma granja. Desde que nascem, as aves podem contar com algumas facilidades. Todos os dias são alimentadas, a cada três dias vem uma pessoa limpa as gaiolas. E por mil dias, a rotina se repete. Se houver alguns analistas entre os perus, eles podem fazer algumas correlações com a época do ano. Quando faz frio, as pessoas vêm limpar a gaiola mais tarde, e recebemos mais deste tipo de alimento, mas nada que mude a rotina. Durante mil dias, as aves são alimentadas e nada, no passado delas, prevê que essa rotina seja mudada.

Aí, chega a época de Natal. Uma mudança completa e total em sua rotina. Certamente, aqueles que assumiram a posição de analistas e estudiosos na criação vão soltar um palavrão antes de serem degolados.

È difícil ter um acontecimento em que 100% da humanidade seja degolada, nós sobrevivemos à fase do palavrão e tentamos explicar o que aconteceu. Como os mágicos tentamos colocar as coisas em ordem. Mas nem sempre dá certo.

Evitando o Natal do Peru – Taleb afirma que, sim, é possível evitar que você tenha um Natal do Peru. Sendo, ele próprio, um operador da bolsa, já viu vários desses natais pela frente. Dá para diminuir o impacto, afirma ele. Mas não espere recompensas por isso. Imagine que alguém tivesse inventado uma maneira de reforçar a segurança nos aviões antes do ataque ao World Trade Center, nos Estados Unidos. Ou que os projetistas do Titanic o tivessem equipado com um casco extra-resistente e revolucionárias medidas de segurança aos passageiros. Você aplaudiria esses heróis?

Não! Porque, nesse caso, o atentado e o naufrágio não aconteceriam. Não teríamos o impacto de nada alterando nossas rotinas, e a vida seguiria em frente como sempre.

Mas, quando a surpresa chegar (e ela pode ser positiva ou negativa), quando o Cisne Negro aparecer, tente seguir as recomedações de Taleb:

> Tenha em mente que vivemos em um mundo de surpresas – Na metade do livro, após expor todas suas razões pelas quais vivemos em um mundo de surpresas e não de rotina, Taleb diz que muitos de nós, leitores, devemos estar perguntando: “Tá, Taleb, entendi, mas o que eu posso fazer?”. Sua resposta: Se você entendeu e aceita que esse é um mundo em constante revolução, já está fazendo bastante. Se não se deixa dominar pela certeza de que as coisas sempre serão daquele jeito, está com uma vantagem sobre os demais profissionais.

> Seja humano – O autor não diz para você evitar julgar as coisas, ouvir os especialistas do mercado e fazer previsões. Essas são fundamentais para seu trabalho e para investir na bolsa. O que você não pode é se tornar dependente das previsões em larga escala, para mais de dez anos. Por exemplo: as possibilidades de aparecer um Cisne Negro ao organizar a pelada do próximo fim de semana é mínima (chuva, nesse caso, não é Cisne Negro: sempre chove). A possibilidade de aparecer um Cisne Negro ao seguir uma previsão sobre o estado da Previdência em 2030 é enorme.

> Lembre-se da teoria do acidente positivo – Certamente, você conhece histórias sobre avanços da humanidade que aconteceram por acaso. Por exemplo: bem em seu começo, a Coca-Cola era considerada remédio: as pessoas compravam seu xarope, levavam para casa e o completavam com água. Até que um dia, uma pessoa com forte indisposição pediu que o farmacêutico preparasse o remédio ali mesmo. Este, sabe-se lá por quê, resolveu misturar água com gás no xarope de Coca-Cola, em vez da água comum. O resto é história. Você quer que acidentes desse tipo aconteçam com você? Só há uma maneira, tentativa e erro. Vá tentar. De repente, aparece um Cisne Negro.

> Use os extremos – Eis a estratégia que Taleb usa em suas operações na Bolsa: já que vivemos em um mundo de extremos, ele evita as ações e operações do meio. Em vez de apostar em investimentos de médio risco (como você sabe, questiona Taleb, que algo é de “médio risco”? Ouvindo perus algumas semanas antes do Natal?), ele coloca de 80% a 90% de seus investimentos em operações extremamente seguras. Os 10% a 20% restantes ele coloca em apostas altamente especulativas. Ele diversifica essas apostas, tentando acertar um Cisne Negro Positivo; e o grosso de seu dinheiro, em papéis e operações superconservativas o protegem da maioria dos Cisnes Negativos. Outra opção é ter um portfólio altamente especulativo, mas fazer um seguro contra perdas de mais de 15%, por exemplo.

> Não tente prever Cisnes Negros – Isso faz com que você fique vulnerável àqueles que você não previu. Invista em estar preparado para tudo, em vez de em prever acontecimentos.

> Busque qualquer oportunidade – Muitas vezes, elas não estão nas mesas dos operadores, estão em festas, encontros casuais, conversas despreocupadas com pessoas que não têm nada a ver com o que você faz. Então, não negligencie sua vida social e os Cisnes que ela pode trazer.

> Cuidado com os planos do governo – Especialmente se forem precisos e cheios de detalhes. Lembre-se do diálogo de Garrincha com o técnico Feola, antes do jogo do Brasil com a União Soviética, na Copa de 1958. Feola traçava as estratégias, mostrava as jogadas planejadas no quadro negro, até que Mané Garrincha ergueu a mão e perguntou: “O senhor já combinou com o adversário, para eles deixarem a gente fazer isso?”. Não. E o governo também não combinou com o adversário. Especialmente em sociedades capitalistas, cujas empresas, ao competirem, ficam naturalmente expostas aos Cisnes Negros – positivos ou negativos.

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* Fonte: Revista InvestMais

* Publicação original: 01/03/2008

* Matérias e artigos provenientes de outras fontes não expressam necessariamente a opinião do Papo de Bolsa.


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  1. Tweets that mention Papo de Bolsa » O impacto do altamente improvável -- Topsy.com on julho 22, 2010 12:19

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