Anderson Lueders

Escritor

Autor do livro:

Investindo em Small Caps

“Uma small cap promissora tem bons indicadores fundamentalista, evidenciado por bom histórico de lucros”

“Quem não planeja seus investimentos corre o risco de ter disponibilidade justamente em um momento de euforia do mercado, escolhendo ativos caros”
“O investidor pode construir uma carteira de small caps adaptada aos cenários econômicos e ao seu próprio perfil de risco”

Livro

O autor do livro “Investindo em Small Caps” é exímio estudioso sobre este grupo de ações, muitas vezes relegadas por investidores, parte devido o pouco conhecimento e menor exposição das mesmas na mídia. Lueders é bacharel em Direito com pós-graduações em Política judiciária e Administração da justiça, além de Gestão Empresarial. O Foco da entrevista definido pelo Personalidades do Mercado não poderia ser outro: o ‘mundo’ das small caps.

O que são as small caps, quais os prós e os contras e porque investir nessas ações?

As small caps são ações de empresas menores, com liquidez mais restrita quando comparada às demais alternativas de investimento em bolsa. De qualquer sorte, são empresas que também chegam a faturar bilhões e movimentar milhões diariamente, volumes superiores ao que muita gente imagina.

A principal dificuldade é que a pesquisa no universo total de ações da bolsa para encontrar empresas subavaliadas, com potencial de crescimento exponencial, é tarefa que exige preparo técnico e comportamental, além de métodos adequados. Não se trata de opções de investimento expostas em uma vitrine, com inúmeros indicativos, propagandas e facilidade imediata de acesso a análises e material de apoio à decisão. Felizmente, todo o esforço necessário para localizar uma excepcional empresa, costumeiramente uma small caps, é altamente recompensado no caso de acerto. Há situações em que o retorno supera 10, 20, 50 vezes o investimento inicial! Trata-se do justo premio para quem dedicou seu tempo e nadou contra o comodismo que é seguir indicações de terceiros.

Há diversas razões para acreditar nas small caps. Começa com o desprezo da omissão de análises destes ativos dos players do mercado. Isto é ótimo, pois enquanto muitos estão buscando rentabilidade num mesmo ativo, há outros totalmente desprezados e que podem guardar tesouros inexplorados. Além disso, as small caps podem crescer diversas vezes o tamanho inicial. Uma empresa com 1% de market share, caso aumente para 2%, terá crescido 100% e isto provavelmente demandará um novo patamar de cotação das ações. Uma empresa que já possue 50% de Mercado, caso incremente os mesmos 1% o market share, terá um apenas 2% de crescimento. Mas é necessário selecionar bem as empresas.

Além disso, a lista das maiores altas de todos os anos no mercado de ações é sempre composta por small caps que foram desprezadas num determinado momento. Em 2009, por exemplo, várias ações de bancos médios e construtoras apresentam altas exuberantes.

Que critérios devem ser utilizados para avaliar e escolher esses ativos e qual a melhor estratégia para operá-los?

Há uma série de critérios a serem considerados. Começa por observar as relações de preço versus valor, como os indicadores Preço/Lucro, Preço/Valor Patrimonial, Preço em relação ao faturamento, Dividendo pago em relação ao preço e Preço/EBITDA, entre outros. Após, é necessário verificar o balanço da empresa, constatando a situação patrimonial e se os resultados que geraram bons indicadores são recorrentes. A decisão de investimento e a compra se dá aos poucos, quando as evidências de que a empresa pode apresentar bons resultados vão se confirmando a cada novo balanço trimestral publicado.

Os indicadores fundamentalistas juntamente dos balanços indicaram, portanto, as fases de compra, manutenção ou venda das ações. Com isso, o investidor estará comprando ações durante a crise, a preços extremamente convidativos. E estará vendendo durante a euforia, quando os preços indicam que o risco de perder capital supera o ganho ainda possível.

Qual o percentual do montante do capital destinado ao mercado acionário por um investidor seria o recomendado para aplicar nesse grupo de ações?

Depende bastante do momento do mercado acionário e do conhecimento e perspicácia do investidor. Em alguns momentos, como aquele em que vivemos o pânico extremo, no final de 2008, era possível ter um percentual bastante superior de small caps em relação às blue chips. Em contrapartida, durante o ano de 2007, em que as small caps tiveram um desempenho excepcional, muitas delas ficaram mais caras que as ações de empresas de maior liquidez. E serão os indicadores fundamentalistas e as perspectivas econômicas que determinarão o peso relativo de cada aplicação.

O detalhe muito importante é que o investidor pode construir uma carteira de small caps adaptada aos cenários econômicos e ao seu próprio perfil de risco. Basta escolher os ativos que comporão a carteira seguindo esta direção. Por exemplo, ativos de menor risco, que embutem menor crescimento futuro em seus preços atuais e pagam bons dividendos, tendem a ter menor volatilidade, enquanto que as empresas cuja situação patrimonial seja menos favorável e que lutam para melhorar seus resultados empresariais, geralmente são as primeiras a serem vendidas pelos investidores quando os ventos são desfavoráveis.

Qual a importância o senhor confere à análise fundamentalista e a técnica para as small caps?

A análise fundamentalista é a base de sucesso para o investidor de small caps. Já dizia Benjamim Graham que no curto prazo o mercado é uma urna de votos e no longo prazo é uma balança. São os balanços que indicam o rumo que a empresa está seguindo. A partir deles é que se sabe o quanto se recebe de proventos hoje e quanto se projeta receber no futuro diante do reinvestimento dos lucros. O balanço demonstra também a qualidade da gestão quando são comparadas empresas do mesmo segmento econômico.

As empresas small caps reagem aos resultados. Quando vem acima da expectativa, a tendência é que as ações desempenhem melhor que o mercado e vice-versa. Embora se diga que a análise técnica sirva para definir o momento de comprar ou de vender um ativo, os indicadores fundamentalistas também servem de suporte para estabelecer a partir de que preço vale a pena começar a comprar ou a vender ações de uma empresa.

Como diferenciar as small caps supostamente promissoras dos “Micos”?

Há uma série de critérios que permitem diferenciar um mico de uma small cap promissora. Uma small cap promissora tem bons indicadores fundamentalista, evidenciado por bom histórico de lucros, situação patrimonial adequada, boas margens operacionais, etc. Já um mico geralmente se trata de empresas com prejuízos recorrentes, com margens apertadas, com uma sequência de projetos e promessas que não resultam em lucros. E, na maioria dos casos, acumulam passivo a descoberto.

Diversos micos são especializados em trazer esperanças a investidores ávidos por acertar o grande golpe de sorte da vida, como ocorreu com aqueles que acreditaram nas ações da Telebrás. Inúmeros fóruns de discussão são frequentados por pessoas que desejam ver seu mico reagir, mas ultimamente o que tem sido visto é que muitas empresas estão deixando de negociar na bolsa, uma vez que sequer cumprem suas obrigações contábeis e societárias. E o especulador corre o risco de ficar com os papéis na mão até a decretação final da falência.

É viável investir nesses papéis visando o curto prazo, digo, entre três meses a um ano?

O mercado acionário é volátil, imprevisível, suscetível à influencia de inúmeros fatores, relevando-se praticamente impossível acertar quando estará em períodos de queda ou de alta. O maior inimigo de seu investimento, além da falta de conhecimento do que está comprando, é não ter o capital necessário para investimento em bolsa pelo tempo suficiente para que as boas escolhas comecem a gerar resultados.

Com efeito, quem não planeja seus investimentos corre o risco de ter disponibilidade justamente em um momento de euforia do mercado, escolhendo ativos caros. Depois, pode acabar precisando dele quando o humor tiver virado, em um de seus comuns episódios de bipolaridade, obrigando-o a vender suas aplicações em um momento ruim.

É por isso que não recomendo a nenhum investidor aplicar capital na bolsa por período exíguos, com capital com prazo de validade. A primeira providência é dispor do capital necessário para emergências em uma aplicação que não contemple tanta volatilidade como a bolsa de valores.

No curto prazo, o mercado se comporta de maneira emocional, mas, no longo prazo, são as empresas bem administradas, compradas a preços atrativos, que resultarão em valorizações expressivas e o investidor deve ter tempo suficiente para esperar os frutos amadurecerem.

Como se comportam as small caps nos ciclos de alta e de baixa do mercado? É aconselhável acompanhar as oscilações e liquidar posição ou comprar lotes maiores conforme a tendência, ou a indicação seria investir gradativamente segurando-as por períodos mais longos?

Quando houve o estouro da crise, muitos investidores estrangeiros, em busca de liquidez, venderam ações a qualquer preço. E como eram raros os compradores, os preços das ações de liquidez mais reduzida despencaram, abrindo uma janela de oportunidade impressionante, com diversas empresas negociadas a preços totalmente irracionais, impensáveis. Com a volta dos investidores, especialmente estrangeiros, ocorre cenário inverso, havendo ausência de vendedores. Esta pressão de compra é muito mais facilmente sentida nas empresas com menor liquidez.

O investidor deve fazer uso de outras alternativas de investimento que se comportam de forma diferente do mercado de ações para compor sua carteira de ativos. Isto garantirá capital para aplicar durante as liquidações, como a que vimos no final de 2008. Estes recursos são angariados com os lucros realizados no decorrer das altas, na medida em que os preços começam a precificar de forma excessiva um cenário positivo.

Não há prazo certo em que o investidor ficará com a ação. Pode ser que as ações venham apresentando alta e os lucros sigam com a mesma evolução, renovando a justificativa para manutenção das ações. Não serão poucas às vezes em que após longos períodos, o investidor verá suas ações se multiplicarem de forma relevante de valor. Também é possível que uma escolha se revele inadequada, com a empresa aparentemente promissora decepcionando na divulgação de balanços. Nesta hipótese, pode-se avaliar a venda das ações, independentemente do tempo e da existência de lucros ou não nas negociações.

Por vezes alguns desses ativos apresentam longa fase de estagnação em suas cotações, com duração de semanas ou meses. Existem períodos mais indicados para compras ou para vendas?

O investidor deve acompanhar os resultados trimestrais, comparar com os desempenhos passados e visualizar como anda a tendência. O melhor momento de comprar uma ação é quando se é um dos únicos interessados em fazer isto, valendo o mesmo para a venda. Este conceito paradoxal exprime apenas a realidade de que quando muita gente estiver querendo comprar um ativo, é grande a probabilidade de seus preços estarem muito altos. Afinal, é assim que se formam as bolhas.

O fato de as cotações ficarem estacionadas por um longo período apenas pode ampliar o prazo de oportunidades de compra ou de vendas, ou indicar um momento de manutenção, quando o investidor deve aguardar para que os frutos de suas boas decisões possam ser colhidos ou reavaliar seus erros, tudo de acordo com a evolução dos balanços empresariais. Em empresas baratas, com bons múltiplos, esta espera pode ser remunerada com dividendos regulares e compensadores.

O senhor é autor da importante obra literária “Investindo em SMALL CAPS ”. O que o investidor encontra neste livro que lhe possibilita melhor qualificação para operar essas ações?

O livro apresenta um roteiro completo para que o investidor tenha sucesso em sua empreitada no mercado, abordando aspectos que o diferenciará para obter ganhos consistentes a longo prazo. Você saberá quanto está pagando quando compra uma ação e quais são seus riscos, livrando-o do tormento costumeiro para os investidores em geral, que é decidir o que comprar, quando, em qual quantidade, como se comportar, que dinheiro utilizar, dentre outras questões.

Mostra ao investidor um roteiro completo para seleção de empresas, especialmente small caps. O livro trata, entre outros assuntos, da:

a) contextualização do momento do Mercado acionário, abordando a análise multimercado de investimentos, entre outros;

b) dos indicadores fundamentalistas, advertindo sobre os possíveis erros na utilização deles;

c) dos aspectos relevantes do balanço a serem apreciados, das fontes de informações e formas de avaliação das empresas;

d) dos tipos de empresas small caps para investimento, sendo abordados os indicadores que devem ser utilizados para seleção de cada uma delas;

e) da estratégia de investimento, abordando como minimizar o risco, como compor a carteira de ações, a importância da diversificação e como fazê-la de forma eficiente;

f) a freqüência da negociação de ações, o momento para compra, manutenção e vendas é discutido;

g) do comportamento que o investidor deve ter e quais são aqueles que afetam o desempenho no Mercado acionário;

h) de exemplos práticos da carteira small caps, mostrando como ela foi formada, seu objetivo e resultados, com a análise completa de três empresas com diferentes características e razões para compra.

Quais as small caps podem ser destacadas como atrativas para o médio e longo prazo?

Os preços atuais não relevem mais barganhas absurdas. Mas ainda há small caps bem administradas, com resultados promissores, que são negociadas levemente abaixo ou próximo do valor patrimonial. Mas é claro que agora é necessária uma boa seletividade, uma vez que o nível de acerto vai ficando mais difícil na medida em que as cotações vão ficando mais elevadas. O ideal é sempre aproveitar a insanidade coletiva que vende ações a qualquer preço. Para quem não fez isto ainda, há empresas com preços ainda atrativos, mas que já subiram mais de 200, 300% desde o ápice do pânico.

Entre elas podemos destacar algumas empresas do segmento da construção civil e os bancos médios. A escolha poderá ser realizada brevemente, uma vez que as empresas têm até a primeira quinzena de maio para entregar os balanços. Sobre as perspectivas setoriais da bolsa, sugiro a leitura do tópico que publiquei no blog de minha autoria, “Perpectivas setorias para as small caps em 2010” (Veja aqui).

Como o senhor vê o mercado atual e qual a sua expectativa para o índice Bovespa para os próximos anos?

O que move o mercado são as expectativas. Vários olhares mundo afora estão atentos aos passos do Brasil. Muitos fatores positivos impulsionaram as valorizações, como os seguintes: patamar de juros em níveis historicamente baixos; investimentos a serem realizados em razão do pré-sal, da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016; ampliação da oferta de crédito, inclusive para o setor imobiliário; aumento da renda do trabalhador; patamar de desemprego em níveis muito baixos e pauta exportadora impactada positivamente pela demanda Chinesa.

Os maiores riscos de longo prazo são os decorrentes dos problemas estruturais do Brasil que ainda precisam ser resolvidos, como a carga tributária, a eficiência do Estado, o nível de educação da população e mais recentemente, o perigo do aumento dos gastos públicos correntes, que tem sistematicamente diminuído o superávit primário, sustentado por mecanismos contábeis.

Diante deste quadro, é bastante factível que a bolsa continue se valorizando, mas não no ritmo que vimos recentemente, e muito menos sem volatilidade. A verdade é que a demanda chinesa sobre a pauta de exportações brasileiras e o aumento do crédito (cujo efeito um dia acaba) ofusca bastante a visão do que ainda há que ser feito e dá uma falsa impressão de que tudo está resolvido.

Mas com trabalho e seriedade, o Brasil pode sim avançar posições importantes no ranking de maiores economias globais, o que contribuirá decisivamente sobre o desempenho do mercado acionário.

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Data: 11 de maio de 2010 | Entrevistado por: Fernando Biondi

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